Assédio moral, também chamado “psicoterrorismo no trabalho”, é tão antigo quanto o trabalho; já existia na Antigüidade, quando o escravo era recrutado à força. Trata-se de uma prática perversa, bastante comum, realizada no local de trabalho. É aquela sensação de medo, isolamento, humilhação e insegurança que, em maior ou menor grau, a maioria dos trabalhadores alguma vez já sentiu. Esse terror psicológico pode se instalar em qualquer ambiente de trabalho e afetar profissionais de todos os níveis hierárquicos.
A novidade reside na intensificação, gravidade, amplitude e banalização do fenômeno e na abordagem que tenta tratá-lo como não inerente ao trabalho.
Um cenário crítico, levando em conta que a prática de assédio moral é capaz de até desequilibrar e provocar explosões de ódio, acarretando situações desesperadas, com riscos ou até mesmo perdas de vidas.
O medo do desemprego é uma das principais causas desse fenômeno. Para garantir seu emprego, o(a) funcionário(a) sujeita-se a atitudes anti-profissionais. Quando a auto-estima está em baixa, o(a) funcionário(a) não se reconhece como profissional, tornando-se, assim, alvo para qualquer tipo de assédio.
Quando se fala de assédio moral merece destaque a questão do “assédio sexual”, que se configura quando a liberdade sexual de outra pessoa é invadida e ela é coagida a fazer aquilo que não quer. A situação se agrava quando alguém se utiliza do poder hierárquico sobre outra pessoa, normalmente do sexo feminino, para assumir uma conduta sexual que faz com que a pessoa assediada se sinta molestada, constrangida ou humilhada. Para que se caracterize o assédio sexual é elementar que haja recusa por parte do assediado; do contrário, o fato será encarado como paquera ou namoro.
- Qual a extensão do Assédio Moral ?
A violência moral no trabalho constitui um fenômeno internacional.
No chamado mundo civilizado, segundo inquérito da União Européia, cerca de 12 milhões de trabalhadores já foram vítimas de maus tratos morais; nos EUA, ocorrências de assédio sexual levam frequentemente a punições por parte das empresas.
No mundo latino-americano, árabe, africano e asiático, o assédio moral e sexual existe de forma alarmante, analisando gravidade, freqüência e tendência crescente.
No Brasil, o tema é pouco discutido, mas os números também assustam. Recente pesquisa, publicada na "Folha Equilíbrio", suplemento do Jornal Folha de São Paulo, de 21 de fevereiro de 2002, revela que a maioria dos trabalhadores sente o drama na pele. Segundo o jornal, foram ouvidos 4718 profissionais em todo o Brasil e 68% deles disseram sofrer de algum tipo de humilhação, várias vezes por semana.
Trata-se de uma situação evidentemente delicadíssima, numa nação com altíssimas taxas de desemprego e uma tradição autoritária derivada da escravidão, na qual o agressor costuma alegar (de forma irritante e persistente) “estar querendo somente ajudar, dar um toque, uma dica”.
As perspectivas são sombrias para as duas próximas décadas pois, segundo a Organização Internacional de Trabalho - OIT e a Organização Mundial da Saúde - OMS, estas serão as décadas do “mal-estar na globalização", em que predominarão angústias e depressões.
- Motivos para o Assédio Moral
Em geral, inveja, mesquinhez, preconceito, machismo e pequenez de mentalidade levam a este tipo de comportamento. O agressor alega, entre outras coisas, que “é pelo bem do assediado”. Isto é, indubitavelmente, o sumo da hipocrisia.
Um dos principais motivos do assédio é, ainda, o fato de o empregador desejar o desligamento do funcionário, mas não querer demiti-lo, em função das despesas trabalhistas decorrentes. Cria-se, então, uma situação insustentável em que o empregado é levado a pedir demissão - compulsiva.
De acordo com o site
www.assediomoral.com.br , a violência é geralmente exercida pelas pessoas “inseguras, autoritárias e narcisistas”. Esses indivíduos
• têm facilidade para manipular as pessoas
• sabem identificar quem vai abaixar a cabeça perante seus insultos
• têm propensão à perversidade
• têm intenção firme de constranger ou humilhar a vítima
• Perfil do Assediado
• Empregados que são considerados velhos
• Empregados que não aceitam o autoritarismo e são mais capazes do que o agressor
• Portadores de deficiência física
• Pessoas que têm valores religiosos/políticos/sexuais diferentes do agressor
• Homens em um grupo de mulheres e mulheres em um grupo de homens
• Mulheres grávidas ou com filhos pequenos
Daí se conclui que o assédio moral, em geral, é praticado contra minorias, pessoas vulneráveis e contra a mulher em particular.
Para que se caracterize o assédio moral, são fundamentais a intenção do agressor de atingir o empregado e a repetição da agressão. Em geral, um ataque isolado não seria prejudicial, apenas causaria um certo incômodo. O que faz o assédio moral ser violento é a freqüência com que o ato é praticado. O assediador utiliza estratégias como:
• Escolher a vítima e isolá-la do grupo
• Menosprezá-la em frente aos pares
• Criticá-la publicamente
• Desestabilizá-la emocional e profissionalmente
• A explicitação do assédio
O assédio moral manifesta-se por gestos e condutas abusivas e constrangedoras, tais como: inferiorizar o indivíduo, ignorá-lo, difamá-lo, ridicularizá-lo, passar tarefas através de terceiros ou colocá-los em sua mesa sem avisar, controlar o tempo de idas ao banheiro, tornar público algo íntimo da pessoa subordinada, não explicar a causa da perseguição e assim por diante.
O assédio sexual se torna evidente através de piadas jocosas relacionadas a sexo, cantadas desmascaradas, insinuações vulgares, “elogios” ao corpo, ou mensagens/fotos de caráter pornográfico.
- Exemplos de assédio moral
Nas empresas
• Humilhações com intenção de forçar o pedido de demissão
• Estabelecimento de metas impossíveis de serem atingidas e a cobrança humilhante
• Boicote através de menos trabalho e/ou trabalho menos complexo do que o padrão
• Isolamento dos demais colegas
• Ataques freqüentes à vida pessoal do empregado, no ambiente de trabalho
No ambulatório das empresas e INSS
• Ser atendido de porta aberta e não ter a privacidade respeitada
• Ter seus laudos recusados e ridicularizados
• Dar alta antecipada ao doente em tratamento, encaminhando para a produção
• Negar laudo médico, não fornecer cópia dos exames e prontuários
• Não orientar o trabalhador quanto aos riscos existentes no posto de trabalho
• Política de reafirmação da humilhação nas empresas
a) com todos os trabalhadores
• Treinar, discriminar por sexo: cursos de preferência para homens
• Discriminação de salários, conforme o sexo
• Induzir trabalhadores a não procurar o Sindicato
• Dar advertência, em conseqüência de atestado médico
b) com a mulheres
• Impedir que as grávidas se sentem durante a jornada
• Impedir que as grávidas façam consultas de pré-natal fora da empresa
• Exigir das mulheres que não engravidem, evitando prejuízos à produção
c) com os doentes e acidentados que retornam ao trabalho
• Diminuir salários quando retornam ao trabalho
• Controlar as idas a médicos
• Desaparecer com os atestados
• Demitir acidentados do trabalho
• Danos da humilhação à saúde
A depressão é a doença mais freqüentemente constatada como oriunda do assédio moral. Estamos falando de lesões psicossomáticas; causas que precisam do amparo dos tribunais. O mais importante é que o ofendido procure os seus direitos com o simples propósito de recompor a sua auto-estima. A ofensa moral não tem preço; mas vale a pena alguém pagar, nas garras dos tribunais, pela humilhação causada ao seu próximo.
A manifestação dos sentimentos e emoções nas situações de humilhação e constrangimentos é diferenciada conforme o sexo: entrevistas realizadas com 870 homens e mulheres, vítimas de opressão no ambiente profissional, revelam como cada sexo reage a essa situação (em porcentagem)
| Sintomas |
Mulheres |
Homens |
| Crises de choro |
100 |
- |
| Dores generalizadas |
80 |
80 |
| Palpitações, tremores |
80 |
40 |
| Sentimento de inutilidade |
72 |
40 |
| Insônia ou sonolência excessiva |
70 |
64 |
|
Depressão
|
60 |
70 |
| Diminuição da libido |
60 |
15 |
| Sede de vingança |
50 |
100 |
| Aumento da pressão arterial |
40 |
52 |
| Dor de cabeça |
40 |
33 |
|
Distúrbios digestivos
|
40 |
15 |
|
Tonturas
|
22 |
3,2 |
|
Idéia de suicídio
|
16 |
100 |
| Falta de apetite |
14 |
2 |
| Falta de ar |
10 |
30 |
|
Passa a beber
|
5 |
63 |
| Tentativa de suicídio |
- |
18 |
Fonte: Barreto, M. Uma Jornada de Humilhações. 2000 PUC/SP
É este sofrimento imposto nas relações de trabalho que revela o adoecimento, pois o que torna as pessoas doentes é viver uma vida que não desejam, não escolheram e não suportam.
• Verificar, em primeiro lugar, se o que está ocorrendo é realmente assédio moral
• Resistir: anotar com detalhes todas as humilhações sofridas
• Dar visibilidade, procurando a ajuda de pessoas de confiança
• Evitar conversar com o agressor sem testemunhas
• Reunir provas para a comprovação do assédio, p.ex. testemunhas
• Denunciar o assédio ao RH, à CIPA, ao SESMT e ao Sindicato
Se você for testemunha de cena(s) de humilhação no trabalho, supere seu medo, seja solidário com seu colega. Você poderá ser "a próxima vítima" e, nesta hora, o apoio dos seus colegas também será precioso. Não esqueça que o medo reforça o poder do agressor!
O basta à humilhação depende da informação, organização e mobilização dos trabalhadores. Um ambiente de trabalho saudável é uma conquista diária, possível na medida em que haja "vigilância constante", objetivando condições de trabalho dignas, baseadas no respeito “ao outro como legítimo outro”, no incentivo à criatividade, na cooperação.
O combate de forma eficaz ao assédio moral no trabalho exige a formação de um coletivo multidisciplinar, envolvendo diferentes agentes sociais: sindicatos, advogados, médicos do trabalho e outros profissionais de saúde, sociólogos, antropólogos e grupos de reflexão sobre o assédio moral. Estes são passos iniciais para conquistarmos um ambiente de trabalho saneado de riscos e violências e que seja sinônimo de cidadania.
A empresa, muitas vezes, faz vista grossa, ou apresenta-se perplexa diante de uma situação de assédio moral aos seus colaboradores; porém, muitas não sabe ou carece de qualquer liderança situacional a respeito.
É importante que a empresa conheça e oriente todos os seus colaboradores sobre quais aspectos podem ser considerados assédio moral, quais prejuízos a empresa pode ter e, principalmente, quais as reações as pessoas podem manifestar quando submetidas à agressão moral.
Uma estratégia de desenvolvimento do Capital Humano diminui as chances de surgirem comportamentos de assédio moral e aponta a cultura de aprendizado, no lugar da punição bem como a desmistificação das relações de poder.
Já existem empresas que estão começando a encarar o assédio moral e aceitam reclamações. Elas entendem que a produtividade está diretamente ligada ao ambiente sadio - o clima pessoal e organizacional.
Partindo da premissa de que a empresa é um ser vivo, composto pelos colaboradores, cabe a cada um - uns mais, outros menos - dar suporte à missão “Basta!”
• Trabalhe insistentemente para que exista um clima saudável na empresa
• Invista no relacionamento entre os seus funcionários; p.ex., jogos, happy hours etc.
• Estabeleça um código de conduta que deve ser seguido por todos os colaboradores
• Crie a figura do Ouvidor para que o(a) colaborador(a) denuncie
• Converse com as partes envolvidas para saber a visão de ambas sobre o caso
• Recorra aos advogados como último recurso entre as partes
• Se necessário, encaminhe o assediador para um tratamento psicológico/psiquiátrico
Em suma, é possível, sim, dar um “basta”, basta fazê-lo com:
B ravura – Atitude – S eriedade – T eamwork – A creditar (BASTA)!!!
Werner Kugelmeier